Comentário ao Evangelho do Dia – Quarta-feira 18ª semana TC

7 de agosto de 2019 08:00 -

Por Dom Julio Endi Akamine SAC

 

 

Mt 15,21-28

 

A cena da mulher cananéia é uma das mais tocantes do Evangelho. A fé dessa mulher e a fé do centurião romano estão em contraste com as resistências dos fariseus, com a falta fé dos conterrâneos de Nazaré e com a pouca fé dos discípulos de Jesus.

 

A fé da mulher cananéia está aí para nos dizer que nós não temos direito à graça de Deus, que Deus é indisponível, que não somos nós a dispor de Deus para nossos interesses. A mulher cananéia nos ensina que só a fé dá acesso ao pão dos filhos.

 

O episódio de hoje mostra os limites da missão histórica de Jesus e a sua superação. A mulher cananéia é a antecipação profética da superação dos limites da missão e da evangelização. A fé em Cristo superou os limites e os muros de separação entre puros e impuros, entre judeus e gentios.

 

A fé abate as fronteiras que opõe os cães e os filhos. Nas palavras de Jesus, o pão são os bens que são próprios do povo de Israel, por sua vocação e pelas promessas de Deus. Através da fé, a cananéia conquista a participação da promessa feita a Abraão e à sua descendência. Os dons de Deus são sem arrependimento: a precedência do povo eleito não é negada nem retirada, mas dela participamos se, como a cananéia, pedimos com humildade e confiança.

 

Temos que reconhecer que, no plano de Deus, primeiro vêm os direitos e as necessidades do povo eleito. Com esse tocante episódio, reconhecemos, porém, que a fé da mulher pagã e a bondade de Jesus superam qualquer privilégio.

 

O silêncio de Jesus põe à prova e purifica a fé da cananéia. A comparação com os cachorrinhos revela a posição de Jesus que age por exclusão. Jesus argumenta que não fica bem tirar o pão dos filhos para dar aos cachorrinhos. Assim dar a uns significa excluir outros.

 

A mulher aceita humildemente o papel de “cachorrinho” mas devolve o argumento de modo a “vencer” a lógica excludente de Jesus. Ela pensa com uma lógica diferente: umas migalhas da mesa de Jesus são também o pão, e com essas migalhas a mulher se contenta, porque as migalhas equivalem ao mesmo pão que está na mesa dos filhos.

 

A conversão para uma nova pastoral urbana inclui necessariamente o movimento missionário da Igreja em direção de todas as periferias humanas e sociais. Ir para as periferias existenciais para escutar os apelos das periferias: nelas a cananéia de hoje clama por socorro. Mais ainda a cananéia que nós encontramos nos mostra que o abismo que há entre os cachorrinhos e os filhos é superado pelo pão que alimenta tanto uns quanto os outros.

 

Um critério para a pastoral em nossa Arquidiocese é o movimento permanente de ir ao encontro da cananéia que está na periferia para escutá-la e deixar nos converter reconhecendo que o que coloca em comunhão os filhos e os cachorrinhos é o Senhor, o pão descido dos céus. As migalhas com as quais a cananéia se contenta é um protesto e, ao mesmo tempo, uma profecia. Protesto porque aos pobres não se deve reservar somente as migalhas, porque as migalhas revelam a existência de barreiras que separam os filhos dos cachorrinhos. Profecia porque, no fim das contas, as migalhas são também o pão que desceu do céu para dar a Vida ao mundo, porque o pão é mesmo tanto para os cachorrinhos quanto para os filhos. É o pão que nos torna todos comensais da mesma mesa e dos mesmos dons.

 

Rezemos pedindo ao Senhor que nos envie e que nos atraia para as periferias existenciais de nossa Arquidiocese. Supliquemos ao Senhor que nos ajude a ouvir os clamores que vêm das periferias existenciais. É um clamor que pede o pão dos filhos, que nos faz ver que somos alimentados pelo mesmo pão de Vida. É um clamor que nos faz ver que as migalhas são preciosas, mas não devem permanecer migalhas, que mesmo que deixem de ser migalhas não deixam de ser o pão que desce dos céus.

 

 

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