Comentário ao Evangelho do Dia – Exaltação da Santa Cruz

14 de setembro de 2019 08:00 -

Por Dom Julio Endi Akamine SAC

 

 

Jo 3,13-17

 

A festa da Exaltação da Santa Cruz nos coloca diante da razão da nossa alegria: Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna.

 

Deus nos ama! Esse é o dogma central da nossa fé; é a alma de toda a Bíblia; é a afirmação mais importante de toda a Sagrada Escritura! A frase tem um sujeito, um objeto e um verbo que contém o mistério mais vasto e profundo que podemos conhecer e receber: Deus e nós! E entre Deus e nós há o amor!

 

Não é um amor genérico. É um amor que entregou o Filho unigênito ao mundo, ou seja, a nós! Como Jesus fala desse amor que se entrega? Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do homem seja levantado

 

É preciso reler Nm 21,4-9. O povo passa por dificuldades no deserto: a fome, a sede, os agressores… Ao mesmo tempo recebe de Deus proteção contra os inimigos, a água que brota da rocha e o maná que desce do céu. A cada adversidade enfrentada no deserto, Deus manifesta com sinais maravilhosos o seu amor pelo seu povo.

 

Muitos, porém, ainda acham que Deus não faz mais do que sua obrigação e murmuram contra Deus, dizendo que não há água e que estão enojados daquele alimento sem graça. Por isso, os culpados são atacados por serpentes de fogo e muitos morrem por isso. Ante o castigo, os pecadores se arrependem e recorrem à intercessão de Moisés. Deus manda que ele faça uma serpente de bronze e a eleve em uma haste. E todos os que eram picados pelas serpentes e olhavam para a imagem elevada no deserto ficavam curados.

 

Surpreende esse episódio! Deus manda fazer uma imagem de bronze! E essa imagem é de uma serpente! Sabemos que a serpente era uma divindade cultuada como símbolo da fertilidade das religiões pagãs. Além disso, para piorar, ela é também símbolo do tentador; símbolo do mal!

 

Jesus explica a sua morte e ressurreição como um ser elevado! Assim como a serpente de bronze foi elevada, Ele também será elevado! Olhando para Jesus somos salvos. Olhando para o amor feito carne, olhando para Jesus que se entrega na cruz para ressuscitar, temos a salvação dos pecados. Portanto, Jesus explica que com a sua morte e sua ressurreição ele cumpre o que foi prefigurado por Moisés no deserto. O que salvou o povo no deserto não foi a serpente. Tampouco foi o mal. Mas Jesus! Já no deserto, Jesus salvou os pecadores. Olhando para a serpente, eles estavam olhando, mesmo sem o saber, para Jesus.

 

O mundo de hoje faz com que seja difícil acreditar no amor. São tão numerosas as traições, são infinitas as decepções, são terríveis as violências provocadas e sofridas! Quando sofremos a violência e a traição, somos feridos e começamos ter medo de amar e de ser amados, porque não queremos mais ser enganados e feridos. Muitos são também os que acusam a religião e a fé de estar na origem da guerra, da discriminação, da opressão da liberdade individual. Desse modo vai engrossando sempre mais o número daquelas pessoas que não acreditam mais em Deus, porque não acreditam mais no amor de Deus. Não acreditam que o amor dos cristãos seja verdadeiro, de que amor de Deus seja realidade!

 

Dessa forma, entramos em uma nova era de gelo: sem acreditar que Deus nos ama, o mundo está destinado a se dissolver na escuridão e no frio cósmico. Se não há amor, estamos só nadando para o gelo escuro do fim cósmico. Nietzsche soube como ninguém exprimir o surgimento de uma nova era do gelo:

 

A compaixão contraria inteiramente a lei da evolução, que é a lei da seleção natural. A compaixão preserva tudo o que está maduro para perecer; luta em prol dos desterrados e condenados da vida… O homem perde poder quando se compadece… Nada é mais insalubre, em toda nossa insalubre modernidade, que a compaixão cristã.

 

Para enfrentar esse veneno, só há um antídoto: Deus nos ama e nós cremos no amor.

 

Hoje nós somos colocados diante da serpente elevada no deserto! Estamos diante de Jesus elevado na cruz, entre o céu e a terra, com os braços abertos. Estamos diante do amor que se derrama do seu lado perfurado. Esse é o momento decisivo: Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito!

 

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