Comentário ao Evangelho do Dia – 19 de abril – Sexta-feira Santa

19 de abril de 2019 08:00 -

Por Dom Julio Endi Akamine SAC

 

Jo 18,1-19,42 (19,28-37)

Após algumas horas de terrível sofrimento, Jesus morre na cruz. Termina o trabalho dos executores. O que se tem diante dos olhos é um homem morto.

Cessam as agressões; os zombadores emudecem. Retiram-se os curiosos. A tristeza se instala no espírito dos amigos. Muitos discípulos não escondem a decepção.

Diante do crucificado, cabe bem o silêncio e a contemplação. A celebração da Paixão, às 15h, nos convida a adorar a cruz. É oportuno que nos perguntemos sobre o sentido de nossa adoração.

A cruz nos coloca diante do mistério da nossa iniquidade. Até que ponto podemos odiar? Até o ponto de perpetrar o pior dos crimes: matar Deus! Toda história da humanidade prova esta verdade terrível. Somos capazes de realizar gestos estupendos de solidariedade, de dedicação aos outros, de generosidade surpreendente. Somos também capazes do pior: crimes horrendos, genocídio pavorosos, ódio sem limite, vinganças absurdas.

Na cruz, está o documento de nossa acusação. Não temos desculpas que justifiquem nosso crime, crucificamos o inocente, matamos quem nos amou, retribuímos o bem com um crime sórdido; condenamos por inveja, abandonamos o amigo, traímos e renegamos como Pedro ou Judas. Nada poderá mudar este fato: que nós realizamos o mal. Nem o arrependimento mais sincero, nem o castigo mais severo, tampouco a nossa morte pode cancelar este fato irreversível: nós pecamos. A cruz permanece diante de nós como um documento de acusação.

Será que Deus foi vencido pelo nosso crime? Ele fracassou diante de nossa rejeição?

A cruz nos coloca diante do mistério da piedade: até que ponto Deus pode amar! Ele nos amou até o fim, até a cruz. Deus vence nosso crime mergulhando no sofrimento e abraçando a cruz como forma de doação radical de sua vida. Ele não sofre a cruz passivamente, mas a assume como preço de sua coerência, como meio de entrega amorosa pela nossa salvação. Deus é a onipotência do amor; no amor ele pode tudo: pode até mesmo morrer pelos inimigos. Nisto consiste a Boa nova: na cruz Jesus destruiu o documento de nossa acusação. Em vez de nos castigar pela cruz que impusemos a Jesus, Deus transforma o instrumento de suplício em nossa salvação. Pela cruz não somos condenados, mas perdoados.

Não adoramos a cruz como o nosso documento de acusação: a consciência do crime não nos salva. Hoje nós adoramos a cruz instrumento de salvação: Deus converteu nosso pecado em ocasião para uma extraordinária comunicação de graça. Se grande foi nosso pecado, maior é o coração de Deus! De agora em diante a memória de nosso pecado não nos levará mais ao desespero, mas ao abandono nas mãos dAquele que nos salva, à gratidão pela sua infinita misericórdia. Onde abundou o pecado, superabundou a graça.

Não adoramos a cruz como instrumento de ódio contra Deus, pois quem ama não fabrica cruzes para os outros, não impõe sofrimentos a ombros alheios. Adoramos a cruz de Jesus abraçada em solidariedade com os crucificados deste mundo. Jesus se deixou crucificar para protestar contra as cruzes injustas que se impõem sobre os pequenos, para interromper o sofrimento dos inocentes, para deixar claro que Deus está do lado de quem sofre.

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